Clarice Lispector suas obras relançadas pela Rocco,
Uma geração de pioneiras
A Rocco também planeja relançar Eu Sou uma Pergunta, biografia escrita por Teresa Montero lançada originalmente em 1999. Apesar de ter sido publicado há mais de duas décadas, está cotado para ser o livro que trará mais novidades relacionadas a Clarice em 2020. Isso porque voltará ao mercado editorial em uma versão revista e ampliada – aliás, bastante ampliada. O volume deve ganhar pelo menos um terço a mais de conteúdo inédito em relação à edição original, que continha aproximadamente 300 páginas.
– Na época do em que escrevi Eu Sou uma Pergunta, recolhi 88 depoimentos de pessoas ligadas à Clarice. É claro que não foi possível usar tudo no livro. O trabalho do biógrafo é realizar uma seleção desse material. Vou trazer para a nova edição vários trechos que ficaram de fora. Tenho uma grande entrevista com o Otto Lara Resende, por exemplo, que foi muito pouco usada. E há depoimentos que recolhi depois, como o do professor Eduardo Cortella – explica Teresa.
Hoje se fala muito sobre a mulher empoderada, mas o que está acontecendo atualmente é resultado do trabalho das mulheres no passado. Clarice e outras mulheres de sua geração foram pioneiras, abriram caminhos.
TERESA MONTERO
Parte dos novos trechos da biografia, que será relançada em outubro, refletem a respeito de qual era o contexto que possibilitou que Clarice se formasse e se afirmasse como escritora.
– Meu olhar está voltado para o questionamento do que significa comemorar o centenário de uma mulher escritora no Brasil. É uma questão que tem a ver com o nosso tempo. Hoje se fala muito sobre a mulher empoderada, mas o que está acontecendo atualmente é resultado do trabalho das mulheres no passado. Clarice e outras mulheres de sua geração foram pioneiras, abriram caminhos – avalia Teresa.
Para a Pedro Vasquez, os debates atuais envolvendo o feminismo encontram eco não apenas na biografia da autora, mas também nos romances, contos e crônicas que publicou:
– Clarice está mais atual do que nunca. Sempre esteve à frente de seu tempo. Era muito arrojada, por isso muitas vezes não era compreendida.
Retratada frequentemente com ar misterioso, Clarice Lispector parecia pouco à vontade – ou até mesmo arredia – ao falar de si própria em entrevistas. Mas Teresa Montero aponta que a escritora, ao contrário do que poderia parecer, tinha uma personalidade agregadora e solidária. Para a biógrafa, há muito a avançar a respeito da relação da autora com outros escritores em pesquisas futuras:
– O senso comum encara Clarice como aquela mulher que ficava solitária, escrevendo em seu apartamento. Mas não é bem assim. Ela participou dos movimentos de seu tempo, porém, sempre com seu modo discreto. Ela não fazia nada para aparecer, para virar manchete de jornal, mas os amigos sabiam do apoio dela a diferentes causas. Era uma mulher profundamente solidária.
Entre as ações que Clarice participou em apoio aos colegas do campo literário, esteve uma reunião de escritores, em meados nos anos 1970, em Porto Alegre. O encontro buscava discutir maneiras de qualificar o ofício dos autores brasileiros, contando também com personalidades como Nélida Piñon, João Antônio e Carlos Eduardo Novaes. O episódio, pouco discutido em outras publicações sobre a autora, deve ganhar relevo na nova versão de Eu Sou uma Pergunta, assim como as viagens da biografada para Cali, na Colômbia, em 1975, e para a capital argentina, em 1976, para participar de eventos literários.
– Clarice dialogou com escritores da América Latina, tanto é que foi traduzida ainda em vida na Argentina e na Venezuela. Por que ninguém fala sobre isso? As pessoas tocam nesse assunto de raspão. Esse é um campo que merece mais estudo, até porque havia um contexto muito particular naquela época. O Brasil vivia sob uma ditadura militar, havia uma dificuldade de circulação dos escritores. É preciso entender como ela chega a Buenos Aires, como ela viaja à Colômbia – diz a biógrafa.
Cartas inéditas em breve
A relação de Clarice Lispector com alguns escritores ficou documentada em cartas. Boa parte delas é conhecida do público, por meio dos livros Cartas Perto do Coração (2001), Correspondências (2002) e Minhas Queridas(2007). Todas essas missivas, bem como algumas inéditas, devem compor o novo livro Todas as Cartas, previsto também pela Rocco para 2020.
A busca dela é pelo entendimento das coisas. Ela sempre se definiu como uma escritora amadora, no sentido de não ter a obrigação de escrever, não ser um trabalho.
PEDRO VASQUEZ
– Pelas cartas, é possível perceber como Clarice se insere no meio literário. Ela não tem uma pose de escritora. É aquela mulher que se encontrou nesse ofício que tem o nome de literatura. Mas a busca dela é pelo entendimento das coisas. Ela sempre se definiu como uma escritora amadora, no sentido de não ter a obrigação de escrever, não ser um trabalho – aponta Teresa.
Todas as Cartas terá organização de Vasquez e notas de Teresa Montero. Além da Rocco, nenhuma outra editora divulgou títulos relacionados à escritora. A Companhia das Letras, que detém os direitos de Clarice, biografia escrita pelo americano Benjamin Moser, é vaga a respeito de uma nova edição – segundo assessoria, “há ideias, mas tudo ainda em fase de discussão”. O público, no entanto, parece sempre ávido por novidades da autora, como observa Vasquez:
– Quem lê um livro de Clarice acaba lendo pelo menos mais meia dúzia. É uma experiência de vida transformadora. Além disso, ela se tornou uma figura pop, mais ou menos como Frida Kahlo. Vira e mexe você vê alguém com uma bolsa ou uma camiseta estampada com o rosto de Clarice. São figuras que ganham vida além de suas obras.
Para Teresa, trata-se de uma obra que se renova a cada leitura:
– Quando você lê um texto de Clarice, tem a sensação de que ela está junto de você.
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